25 de maio de 2020 às 18:22

Caso bem-sucedido na América Latina, Uruguai enfrenta covid-19 sem quarentena obrigatória e uso de máscaras

Vizinho do Brasil pemitiu funcionamento do comércio e impôs poucas restrições; mesmo assim, pesquisas apontaram que mais de 90% dos uruguaios ficaram em casa; país só teve 22 mortes até agora.

Crédito:M. Campodonico

Apesar de não ter declarado quarentena obrigatória ou exigido o uso em massa de máscaras contra a expansão do novo coronavírus, o Uruguai tem conseguido manter índices baixos de casos da covid-19 e leitos de UTI desocupados.

É o oposto do que tem acontecido em países como Brasil e Chile, entre outros países da América do Sul, onde o número de vítimas da doença e problemas no sistema de saúde têm gerado preocupações.

Os resultados uruguaios levaram o presidente Luis Lacalle Pou a anunciar, na semana passada, o retorno às aulas presenciais a partir de junho, após dois meses de paralisação das escolas e universidades. A decisão de permitir o retorno das crianças ao colégio, disse, será dos pais ou dos seus responsáveis.

"O retorno é voluntário. Analisamos a situação com um grupo de especialistas e vimos que o risco da volta às aulas é mínimo", disse Lacalle Pou.

Em entrevista à BBC News Brasil, o ministro da Saúde, o médico neurologista Daniel Salinas, explicou que as medidas do governo são tomadas a partir das orientações de um grupo de médicos de diferentes áreas, farmacêuticos, engenheiros, matemáticos e profissionais de estatísticas, entre outros, que avaliam os riscos de proliferação do vírus e seus impactos.

"Medimos o impacto e os riscos de cada passo que damos porque somos cientes da virulência e da intensidade do contágio do coronavírus", afirma Salinas.

Até esta segunda-feira (25), o país vizinho do Brasil, que tem cerca de 3,5 milhões de habitantes e uma das maiores taxas de longevidade da América do Sul, registrava 769 casos confirmados do novo coronavírus, com 618 pessoas recuperadas (a maioria em casa) e 22 mortos pela doença. O ministro disse que os mortos já tinham problemas crônicos de saúde quando contraíram o vírus.

A história da quarentena no Uruguai começou no dia 13 de março, quando o país registrava quatro casos da doença. O governo implementou medidas similares às de outros países da região, como a Argentina e o Peru. Fechou fronteiras, suspendeu voos, aulas nas escolas e universidades, missas e outros cultos religiosos e eventos como jogos de futebol e shows de rock.

O país também limitou a duração e participação de velórios: uma hora com 15 pessoas no máximo. Desde então, permitiu que apenas um cruzeiro permanecesse nas suas águas costeiras — e por questões humanitárias, porque a embarcação, que tinha mais de 200 infectados por coronavírus, não havia conseguido ancorar em outros países. Um tripulante morreu e os demais já estão em seus países.

Mas no Uruguai, ao contrário do que aconteceu em vizinhos como a Argentina, que aplicaram quarentena rigorosa, o comércio, de forma geral, foi liberado — excetos os shoppings.

 

Em abril, a construção civil voltou a funcionar, com precauções contra o vírus. Nos lugares abertos, recomenda-se que os trabalhadores usem máscaras e respeitem a distância social. No setor público, pessoas com problemas de saúde e na idade de risco para a doença receberam licença.

 

Logo no início da quarentena, Lacalle Pou disse que não estava em seus planos "limitar a liberdade" das pessoas e que "não desaconselhava as saídas de casa" desde que cada um adotasse medidas de precaução como o distanciamento social e o uso de máscaras.

"Mesmo não sendo obrigatória, a maioria preferiu ficar em casa e muitos comerciantes optaram por não abrir até porque as pessoas não iriam, principalmente no início da quarentena. Isso foi visível aqui em Montevidéu e também no interior do país", disse Mariana Pomies, diretora da consultoria Cifra de opinião pública, falando da capital uruguaia.

Pesquisas da consultoria apontaram que mais de 90% dos uruguaios acataram a recomendação de ficar em casa. No entanto, os levantamentos mostraram que, para os uruguaios, "a parte mais difícil" era evitar os encontros com amigos e familiares. No início da quarentena, 84% tinham suspendido visitas aos mais próximos, mas este índice caiu para 63%, de acordo com a Cifra. A mesma consultoria detectou, a partir das pesquisas, que "existe consenso" dos uruguaios sobre como o país, incluindo o governo e o sistema de saúde como um todo, está encarando o coronavírus.

 

Fonte: revista Época

comentários

Estúdio Ao Vivo