16 de junho de 2020 às 10:06

Mais de 210 mil alunos estão sem aulas em universidades públicas em meio a pandemia da Covid-19

Seis das principais instituições públicas do país (UnB, UFF, UFRGS, UFRJ, UFMG e Uerj) não têm data para voltar e listam dificuldades com ensino remoto.

Crédito:Foto: Gabriel Monteiro

 A pouco mais de um mês do que seria o fim do primeiro período letivo de 2020, universidades federais e estaduais ainda não têm data para a volta às aulas. Seis das principais instituições públicas do país (UnB, UFF, UFRGS, UFRJ, UFMG e Uerj), com cerca de 210 mil estudantes de graduação, estão com as atividades interrompidas desde março.

Sem orientação definida e unificada pelo Ministério da Educação (MEC), a maioria planeja um retorno gradual, no qual o primeiro passo é a adoção do ensino remoto emergencial para as disciplinas teóricas. A dificuldade, no entanto, é incluir digitalmente alunos que não têm acesso regular à conexão de internet.

Nas estaduais de São Paulo, no entanto, essa fase já foi superada, e as aulas estão ocorrendo de forma on-line. A USP, por exemplo, gastou cerca de R$ 1 milhão com mais de dois mil kits de internet, que incluem um chip para celular ou um modem portátil. Eles foram entregues a estudantes com necessidades socioeconômicas.

—Precisamos de 600 chips, mas não temos como financiá-los. Estamos atrás de doadores — afirmou Rui Oppermann, reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A reitora da UFRJ, Denise Pires de Carvalho, afirmou que prevê a adoção do ensino remoto entre o final de julho e o começo de agosto. No entanto, em torno de 10% a 15%, ou cerca de 10 mil a 15 mil alunos da instituição, contando a pós-graduação, precisarão de ajuda para equipamentos, como notebook ou tablet, e internet banda larga.

— Não temos orçamento para isso. Vamos encaminhar o orçamento para o MEC, porque queremos retomar as atividades mesmo através do ensino remoto emergencial. Não é o ideal, mas não queremos ficar parados e ter o cancelamento do semestre — afirmou a reitora.

Oppermann diz que há articulações para o MEC abrir um edital voltado para a inclusão digital de universitários sem acesso à internet em casa. Procurado pela reportagem, o ministério não respondeu.

A UFF e a UFMG estão produzindo mapeamentos para identificar a quantidade de alunos sem acesso à internet.

— A desigualdade digital é enorme no país. Fizemos um questionário para saber quais as condições para atividades que possam ser feitas de forma remota. Qualquer decisão tem que levar em conta esse mapeamento — disse a reitora Sandra Regina Almeida, da UFMG, em live na semana passada.

Já Antonio Claudio Nóbrega, reitor da UFF, afirmou que, além do acesso regular à internet, a instituição planeja estruturar um ambiente seguro do ponto de vista sanitário para que alunos sem condições ideais de estudo em casa possam seguir com as aulas remotas.

— Não basta apenas o acesso (digital). Tem o ambiente da residência do aluno que, muitas vezes, dificulta muito — afirmou Antonio Nóbrega.

Soluções encontradas

Em São Paulo, a realidade é diferente. A USP e a Unicamp já conseguiram solucionar pelo menos parte da falta de acesso dos seus alunos e estão prosseguindo com o semestre de forma remota.

Na USP, com a compra dos chips e modens, 90% das disciplinas teóricas de graduação na universidade e mais de 900 disciplinas de pós-graduação estão sendo oferecidas de forma on-line.

E a Unicamp entregou aos alunos mais de 500 chips com 10 GB de internet e mil computadores ou tablets. Parte foi comprada pela universidade, que também contou com doações da comunidade acadêmica.

— Temos mais de duas mil bolsas de auxílio transporte, de cerca de R$ 200, que foram transformadas em auxílio de atividades remotas — disse o reitor da universidade, Marcelo Knobel.

A data do retorno presencial ainda é incerta nas universidades públicas do Rio e de SP.

— Se pudesse, com certeza, a gente voltaria em setembro, no máximo, em outubro. Mas tudo depende da efetividade das políticas públicas de combate ao vírus — ponderou o pró-reitor de Graduação da Uerj, Lincoln Tavares.

Para o especialista em educação superior e professor da Unicamp Leandro Tessler, “orientações gerais seriam muito importantes, mas o país é grande, e cada região passa por um problema com suas peculiaridades”.

— Acho que a decisão final deveria ser segundo cada realidade. Tudo o que fazíamos até março precisará ser muito diferente daqui pra frente. Como as universidades brasileiras são muito conservadoras em termos de currículo e de ensino, sofrerão impactos importantes.

 

Fonte: O Globo

comentários

Estúdio Ao Vivo